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quarta-feira, 22 de junho de 2011

REDES SOCIAIS Por que os jornais temem tanto os jornalistas?

Do Observatório da Imprensa

Por Mário Bentes em 20/06/2011


“Regras de uso de Twitter a afins, criados por grandes conglomerados de comunicação, são a prova de que jornalista, se livre, é perigoso.”


A citação acima é de minha autoria e foi publicada no dia 17 de maio deste ano em meu perfil da rede de microblog Twitter. Tenho, no momento em que escrevo este artigo, 1.777 seguidores que acompanham tudo o que escrevo e repercuto a partir de terceiros, na mesma rede. Deste montante – muitos são jornalistas –, apenas quatro pessoas deram o chamado retweet, quando repercutem para seus próprios seguidores, na íntegra, uma dada micro-postagem. Das quatro pessoas que gostaram do que escrevi (os outros podem simplesmente não ter concordado, evidentemente), duas são jornalistas. Coincidentemente, ambos estão fora das redações dos “grandes conglomerados”.“Regras de uso de Twitter a afins, criados por grandes conglomerados de comunicação, são a prova de que jornalista, se livre, é perigoso.”
Mas será mesmo coincidência? Ou será que alguns jornalistas deixaram de concordar publicamente – aplicando o retweet – para evitar algum tipo de atrito com seus editores e demais chefes nos jornais onde trabalham? Levanto tal questão a partir do que creio ser uma modinha (alguns chamam de tendência) entre os representantes da “grande mídia”. Recentemente, alastrou-se pelos jornalões a prática de criar o que chamam de “regras de uso de redes sociais” para jornalistas. Resumindo, são coisas que os jornalistas “devem evitar” nas redes sociais, a exemplo do Twitter, Facebooke similares. Nos EUA, redações do Washington PostBloomberg e a agência de notícias Reutersestão entre os exemplos. No Brasil, FolhaGlobo e TV Recordseguiram o modelo.
A justificativa dos diretores e sócios destes veículos de imprensa é que, na ocasião de algum jornalista assumir alguma posição a respeito de algum tema, seja ele um partido, um candidato ou uma campanha, a credibilidade do jornal ou emissora ficaria ameaçada; ou que opiniões pessoais dos jornalistas sejam confundidas pelos leitores com a posição oficial do jornal. Isso para ficar nos argumentos mais usados. Mas será isso mesmo? Creio que o buraco é mais embaixo e esconde muito mais ou mesmo nada que esteja relacionado com mera preocupação com “credibilidade” do jornal ou do jornalista.
Concentração de mídia
Antes de falar especificamente sobre a mais nova modinha dos jornais, vamos deixar algumas coisas claras, para começar. Tal como a renda econômica, a concentração de mídia no Brasil é enorme. A esmagadora maioria dos jornalões de todo o território são ligadas a famílias “tradicionais” que, não raramente, estão ligadas a partidos políticos ou seus donos, geralmente “ricos” e ocupam cargos eletivos – o que contraria a Constituição Federal, que proíbe outorgas de rádio e TV para políticos.
Dados do portal Donos da Mídia mostram que existem, pelo menos até a ocasião da minha consulta, 41 grupos de abrangência nacional que, juntos, controlam 551 veículos de comunicação – jornais impressos, emissoras de rádio e TV, revistas, portais e agências de notícias. De acordo com a mesma fonte, os grupos de comunicação possuem 19.466 sócios, sendo destes 271 políticos. Este último número são os “caras-de-pau”, que colocam seus nomes nos contratos sociais das empresas sem se importar com a legislação – já que é o próprio Congresso, cheio destes políticos-comunicadores, que deveria atentar a isso. Mas o número é bem maior, se considerarmos a infinidade de sócios que são parentes ou têm ligações diretas ou indiretas com políticos – os carinhosamente chamados “laranjas”. Estes, com o perdão da piada infame, estão frutificando a cada dia.
O mesmo não vale para as rádios comunitárias, por exemplo. As outorgas dessa categoria levam anos para sair por conta de imensa burocracia e, enquanto as rádios não são legalizadas – apesar de prestarem importantes serviços às suas comunidades –, são taxadas de “rádios piratas”, capazes de derrubar aviões, ou estão a serviço do crime organizado, tráfico de drogas e outras sandices do discurso dominante. Para piorar, muitas das rádios que deveriam ser comunitárias, são “empossadas” por grupos de interesse privado ou mesmo por políticos de menor escalão (porém não com menor gana por poder e dinheiro), como vereadores de botequim e outros aspirantes a novos ricos do dinheiro fácil.
Resumindo: só quem se comunica massivamente neste país são os ricos e poderosos. Não se trata de discurso démodé ou de esquerdista – geralmente é taxado deste modo quem assim pensa. São os números e o contexto político do país que mostram, contra a vontade dos poderosos, que a grande maioria da população é ainda desprovida do poder de informar sua realidade sob a ótica de sua própria realidade, mas apenas pela visão quase unilateral da chamada “grande imprensa”. Entre parte da população não emancipada comunicativamente estão – vejam que engraçado – os próprios jornalistas. Sim, porque quem acha que um jornalista, por atuar em um jornal ou emissora, tem liberdade de expor tudo o que apura sob o viés que crê mais próximo do real, se engana.
Pluralidade de conteúdo
O material captado pelos jornalistas passa por um editor, por um editor-executivo, por um chefe de redação e, em alguns casos, pelo dono do veículo. E é bem comum que parte do material seja descartado por “questões editoriais”. Só quem é jornalista, e sabe de fato o que vê durante sua apuração, sabe que por aí caminha a mais pura e sem-vergonha farsa dos jornais: o filtro das notícias, ou de parte delas, também chamado de gatekeeping, é muitas vezes a desculpa cínica sincera para censurar o que os donos dos jornais acreditam que seus leitores não devam ver. Eles decidem, por tais “questões editoriais”, o que o público precisa ou não ter conhecimento. Para uma analogia perfeita, vejam (ou leiam) Cidadão Kane, de Orson Welles. (Muito além do Cidadão Kane é outra pedida, para o caso brasileiro.)
E assim, os jornalistas, desprovidos de meios próprios onde pudessem dar suas opiniões pessoais, foram reféns deste sistema durante muito tempo. Mas aí veio uma tal de internet que, ao contrário da lógica comercial natural da tecnologia dos grandes interesses industriais, acaba sendo mais democrática. E com ela, mais tarde, surgiram os blogs, as redes sociais etc. E como foi interessante a internet para os jornalistas! Aos poucos, criaram seus blogs, seus perfis no Twitter, Buzze Facebook, entre outros, e começaram a escrever. A novidade: sem os filtros dos editores, dos editores-executivos e, claro, dos donos dos jornais. E não é que isso incomoda?
Incomoda e muito. Os jornalões viram que os jornalistas, em seus espaços independentes, têm poder – ainda bem limitado e inferior, que fique claro – de, indiretamente, influenciar o público; de dar suas opiniões na grande rede e de dar outras visões, além da massificada pelo Jornal Nacional e similares. No Twitter, o público leitor acompanha os perfis da “grande imprensa”, mas faz questão de acompanhar os perfis particulares dos jornalistas. Até porque “informação”, como dizem, “nunca é demais”. Os jornalistas precisam dos empregos para sobreviver, não para agir como jornalistas. Mas os jornais precisam dos jornalistas para funcionar, independente de qualquer coisa. De qualquer modo, isso deveria ser bom, pois a multiplicação das fontes de informação, sejam elas empresas de comunicação ou pessoas capazes de bem informar (independente da formação em jornalismo), poderia garantir pluralidade de conteúdo. E o problema é justamente este: pluralidade.
A velha prática
Quando os jornalistas passaram a dar suas próprias opiniões sobre temas gerais, passaram – na cabeça comercial doentia dos patrões – a competir com os jornais, na medida em que forneciam conteúdo não necessariamente igual ao dos veículos onde atuam. Como já vimos, a maioria dos veículos de comunicação no Brasil (a situação fora daqui não é muito diferente) é ligada a políticos, portanto cheios de interesses comerciais e, claro, eleitorais. E os patrões passaram a ver como ameaça essa tal liberdade dos jornalistas. Livres, sem amarras, se tornaram perigosos para os negócios.
Quando os jornais, ao implantar regras de uso em redes sociais para os jornalistas que com eles trabalham, usaram o argumento que opiniões de jornalistas podem ser confundias pelo “público” como sendo as do próprio veículo, não tenham a menor dúvida: o público a que eles se referem são os seus clientes, aqueles que negociam “notícias imparciais” em troca de publicidade extra. O público que eles tanto fazem de conta defender não está na população, de fato. Aliás, o tal público leitor não é idiota, como os jornais fazem questão de acreditar ou de fingir que acreditam. O público sabe que jornalistas podem ter opinião própria, assim como sabe que jornalistas podem ser vendidos e opinar de acordo com que o chefe quer – inclusive de criticar os jornalistas verdadeiramente livres. O público só não é idiota.
Diante de cenário tão ameaçador – informações sobre muitos vieses, opinião própria, pluralidade de conteúdo e de análises –, os jornalões não tiveram dúvida em dar um basta nisso. Ora, esse samba do crioulo-doido, conhecido vulgarmente como democracia e liberdade de expressão, precisava parar! Essa anarquia de conteúdo, que comprometia e compromete o business e o establishment, devia ser detida. E os jornalões, que adoram falar de liberdade de expressão quando se sentem ameaçados por qualquer um que ouse processá-los por, por exemplo, quebrar seu sigilo fiscal – quando nem a Justiça o fez – ou condená-los por um crime sobre o qual nem sequer foram julgados, recorrem justamente à velha prática da censura.
A inconstitucionalidade das medidas
Não estamos falando de censura propriamente dita, às claras. Os manuais de uso de Twittere afins não dizem que jornalistas não podem usar as redes. Eles fazem pior. Os manuais “recomendam” a não manifestação de posições políticas e similares sob o argumento pífio, citado acima, de que tais podem prejudicar a “credibilidade” e “imagem” do veículo. Ora, não estando definido exatamente o que pode ou o que não pode, o que fazem os jornalistas? Calam-se de maneira abrangente sobre assuntos que tratariam normalmente e passam a falar de amenidades ou, em alguns casos mais extremos, optam por excluir-se das redes sociais. Afinal, diante de tanta subjetividade, quem garante que minha singela reclamação de um posicionamento político de um parlamentar da Indonésia não será entendida como subversão aqui no Brasil?
Aí entra o primeiro crime. Assédio moral dentro do ambiente de trabalho. Pode parecer interpretativo, mas eu, particularmente, entendo que a simples possibilidade de punição, ou mesmo a perda do emprego por algo não necessariamente definido claramente como desvio de conduta por parte do profissional, no caso o jornalista, pode e deve ser encarado como assédio moral. Trabalhar sob risco de demissão quando ajusta causa é, no mínimo, subjetiva, pode ser entendido assim. É uma espécie de chantagem com os trabalhadores.
O segundo crime é o da inconstitucionalidade das medidas. Está lá, na Carta Magnado país, que é direito de qualquer cidadão (jornalistas também se enquadram no perfil, queiram ou não os patrões) a livre manifestação do pensamento, independente de credo, religião, posicionamento político. Em outras palavras, é censura. O que os jornais fazem com os jornalistas hoje com as tais regras de uso não é nada diferente do que fazia o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no período da ditadura militar, só que sem tortura física. Usam do supracitado assédio moral e ameaça de demissão.
Direito para um, direito para todos
A Constituição, além de garantir liberdade de expressão, também fala em direito de ir e vir, acesso à educação, saúde e outros itens raros no mercado. Ela não diz que o cidadão da República Federativa do Brasil tenha que optar entre um e outro, mas diz que ele tem direito a todos eles. Portanto, o que peço aos colegas jornalistas é que, tal como preza a Constituição, não cedam à chantagem patronal e não optem pelo salário em troca de manter-se em silêncio e perder a liberdade. Não é fácil, posso garantir. Sei o que é ter a liberdade, sobretudo o emprego, sob ameaça dos interesses particulares.
Mas é importante deixar bem claro que, a partir do momento em que o cidadão livre, seja ele jornalista ou não, se deixar levar pela ameaça de perder um dos seus direitos garantidos há quase 30 anos depois de um período de sangue, suor e lágrimas, eles estará criando o caminho sem volta para que outros sejam retirados. E, de quebra, estará desonrando os que morreram em nome de tais direitos.
Com as “regras de uso” de redes sociais para jornalistas, os jornais, ainda que de maneira aparentemente não combinada entre si, acabam por criar, juntos, um momentaneamente heterogêneo Ato Institucional da Imprensa Nº 1(AII-1). Da forma em que as coisas andam, com os donos dos jornais cada vez mais inseridos no parlamento de Brasília e colocando seus interesses particulares e empresariais acima dos interesses públicos e coletivos, receio que não demoraremos a chegar no AII-5.
Afasta de mim, e de todos nós, este cale-se.
***
Importante: a liberdade de opinião e expressão na internet, em contrapartida à tirania da “grande mídia”, vale também para não-jornalistas. Existem muitos cidadãos que exercem outras funções durante a vida que não o jornalismo, mas que exercem papel fundamental de dar visões diferentes das massificadas pela imprensa corporativa. O artigo se concentra nos jornalistas por conta, especificamente, do assunto tratado, que são as famigeradas “regras de uso” das redes sociais – que não exercem impacto direto na atuação dos não-jornalistas.
***
[Mário Bentes é jornalista, redator, escritor e fotógrafo]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Saga do Jornal Já

Desculpa para calar a opinião
Por Luiz Cláudio Cunha em 22/9/2010


Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio. (Groucho Marx, 1890-1977, comediante, EUA)
O respeitado Clube de Editores e Jornalistas de Opinião do Rio Grande do Sul, que reúne duas dezenas dos mais importantes colunistas e blogueiros do Estado, tomou uma grave decisão na semana passada. Por escassa maioria, numa reunião virtual feita pela internet, o Clube de Opinião decidiu "não opinar" sobre o inclemente processo que a família do ex-governador gaúcho Germano Rigotto move contra um pequeno jornal de Porto Alegre, o .
A ação judicial, que completa dez anos, está matando financeiramente o jornal de cinco mil exemplares editado há 25 anos pelo jornalista Elmar Bones, que em agosto passado teve suas contas pessoais bloqueadas pelos advogados dos Rigotto. A valente opção não opinativa do Clube de Opinião teve uma bela desculpa: "evitar qualquer conotação política-eleitoral" antes do pleito de 3 de outubro, já que Germano Rigotto é candidato ao Senado pelo PMDB gaúcho. Num sereno, mas contundente editorial publicado no domingo (19) no site do jornal e reproduzido neste OI, Elmar Bones respondeu, batendo no osso da questão:
"Pode ser uma maneira cômoda de contornar uma situação espinhosa, mas essa interpretação não encontra base nos fatos e contraria a lógica da democracia. O processo eleitoral, que exige verdade e cobra opinião do eleitor, não pode ser usado como pretexto para a omissão, o silêncio e a desinformação".Bones, que como Groucho não é sócio do clube, poderia usar o raciocínio que o comediante Marx usava para definir "inteligência militar": "Clube de Opinião sem opinião é uma contradição em termos". A infeliz decisão da entidade gaúcha carteliza e uniformiza, por baixo, o que deveria ser livre e múltiplo: o pensamento. É o fundo do poço de uma incômoda questão que constrange, envergonha e deprime a imprensa do Rio Grande do Sul, um celeiro de bravos profissionais que iluminaram o jornalismo brasileiro nos momentos mais duros de sua história, quando era necessária muita opinião, muita coragem, muita resistência. Elmar Bones é um sobrevivente daqueles tempos, quando então comandava o CooJornal, uma das legendas da valente imprensa nanica que afrontava os generais da ditadura de 1964.

A omissão
A candente questão que o clube gaúcho tangencia é que o  não está sendo punido por sua opinião, mas pela embaraçosa informação que publicou em 2001: o envolvimento de Lindomar Rigotto numa licitação fraudulenta na CEEE, a estatal de energia elétrica. Enxertado na diretoria financeira pelo irmão Germano, então o poderoso líder do governo do PMDB na Assembléia Legislativa, o mano Lindomar fez uma mistureba financeira tão grande que acabou sendo o personagem central de um CPI que indiciou ele, outras onze pessoas e onze empresas. O cabeça da quadrilha, que montou a operação na CEEE, era o irmão menos famoso de Rigotto, segundo o relatório final da CPI: "De tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a prática de corrupção passiva e enriquecimento ilícito de Lindomar Vargas Rigotto", escreveu corajosamente o relator e deputado Pepe Vargas (PT), apesar de ser primo de Lindomar e Germano.
Essa era a reportagem de capa que o JÁ publicou há dez anos, sob o título "Caso Rigotto – um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não esclarecidas". Não tinha nada de opinião. Era pura informação, matéria prima do bom jornalismo, baseado em peças do Ministério Público e nos autos da CPI, agregando detalhes sobre a vida turbulenta de Lindomar, que acabou assassinado por assaltantes de sua casa noturna, no litoral gaúcho, em 1999. A matéria do jornal arrebatou em 2001 os principais troféus de jornalismo do sul do país – o Esso Regional e o ARI, da Associação Riograndense de Imprensa. E acabou premiada, também, com o processo da família Rigotto.
O Clube de Opinião achou por bem não opinar nada sobre este vergonhoso, continuado ataque ao primado da liberdade de expressão no país. Se levassem a sério seu pretexto para este mutismo – "evitar qualquer conotação político-eleitoral" –, os bravos formadores de opinião do Rio Grande do Sul deveriam se esquivar de gastar tinta e tempo com assuntos constrangedores como a bolsa-família da ex-ministra Erenice Guerra, que empregou a parentada em órgãos públicos e tinha no coração do governo Lula um filho tão empreendedor quanto o irmão de Germano Rigotto. A intermediação de Israel Guerra, conforme a capa da revista Veja da semana passada, arrumou para um empresário aflito um contrato camarada de R$ 84 milhões nas entranhas dos Correios. A lambança de Lindomar Rigotto, segundo a manchete do , lesou os cofres públicos gaúchos, em valores corrigidos, numa soma dez vezes maior: R$ 840 milhões, a maior fraude da história do Rio Grande.

A contradição
Se tivesse o mesmo comportamento caridoso que hoje oferta ao candidato Germano Rigotto, que imagina preservar, o Clube de Opinião deveria se esquivar também de falar sobre os fatos constrangedores que já demitiram quatro funcionários da Casa Civil de Lula e provocam evidentes embaraços na candidata Dilma Rousseff. É um escândalo de forte conotação política, e supostamente eleitoral, tanto quanto a ação que garroteia o jornal de Elmar Bones.
Apesar dessa contradição, nenhum dos bravos sócios do clube deixa de bater na Erenice, criatura criada por Dilma, que agora diz não ter nada a ver com isso: "Eu não posso responder por ela", esquiva-se a petista. Aliás, a mesma desculpa de Rigotto, que alega não ter nada a ver com a perseguição ao : "Eu desconheço o processo contra o . Isso é coisa da minha mãe", fantasia Germano. Dona Julieta Rigotto tem 89 anos.
Um dos mais ferozes membros do Clube de Opinião gaúcho é Políbio Braga, dono do blog mais influente e acessado do sul do país, com quase 100 mil assinantes. Militante estudantil de esquerda no início dos anos 1960 em Santa Catarina, foi diretor da Folha Catarinense, do Partido Comunista, onde era apenas simpatizante, não filiado. Chegou a ser presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), na época em que José Serra presidia a União Nacional dos Estudantes (UNE). Depois do golpe de 1964 foi preso pela ditadura uma dúzia de vezes e, na mais longa delas, cumpriu seis meses de pena no antigo presídio do Ahú, um bairro de Curitiba.
No comando de seu blog, hoje, Políbio é contundente, bem informado e impiedoso, principalmente com tudo que acontece no turbulento entorno da Casa Civil e da candidata petista à presidência da República. Quando Veja explodiu nas bancas no sábado (11/9), Políbio festejou: "Estoura escândalo maior do que o Mensalão no Governo Lula", era a manchete do blog. Sobre o escândalo do irmão de Rigotto, matematicamente dez vezes maior do que o do filho de Erenice, quinze vezes mais estrondoso que a quadrilha dos 40 do mensalão chefiada por José Dirceu, Políbio não ousou escrever uma única linha, muito menos dar sua retumbante opinião. No fim de agosto, o Observatório da Imprensa abordou, pela segunda vez, a saga do e de Elmar Bones, num texto ("Como calar e intimidar a imprensa") que teve larga repercussão na internet – e nenhuma no ágil e abrangente blog de Políbio Braga.

O rabo
Autor desse texto, liguei várias vezes pedindo que Políbio abrisse espaço para o tema Rigotto vs. , confiando no belo lema que seu blog desfralda: "De rabo preso com a notícia". Cansado de minha cobrança, Políbio acabou admitindo:
"Sobre este caso, devo te dizer que adotei uma linha de ‘rabo preso’ com meus amigos, que não são muitos, mas que prezo demais. Um deles é o Rigotto. Ao longo dos últimos 10 anos, tenho conversado com ele a toda hora, temos almoçado juntos, ele é fonte que consulto a todo momento, vou votar nele e também toda a minha família e os amigos que têm razões para fazer isto".Assim, descobri consternado que o Políbio eleitor prevaleceu sobre o Políbio jornalista e o seu festejado blog, além da notícia, tinha o rabo irremediavelmente preso a Germano Rigotto.
É justo esclarecer que Políbio Braga e seus colegas de clube não estão sozinhos neste vasto e silencioso constrangimento. Nenhum grande órgão da imprensa gaúcha se atreveu a mencionar o caso do JÁ e seus escandalosos antecedentes, de forte "conotação político-eleitoral" e um evidente poder letal sobre a boa imagem de Rigotto, que tem um chamativo coração vermelho como símbolo de sua campanha ao Senado.
Na RBS, a maior rede regional de comunicação da América Latina (Zero Hora, o maior do estado, e mais sete jornais, 21 emissoras de TV, 24 de rádio e sete portais de internet), o assunto passa batido pela pauta diária do conglomerado de mídia. Rigotto, sempre que pode, lembra aos amigos que tem uma relação especial de amizade com Nelson Sirotski, o diretor-presidente do grupo. O mesmo acontece no segundo maior grupo do estado, a Record, onde se destacam o Correio do Povo e a rádio Guaíba, hoje sob controle da Igreja Universal.
Na sexta-feira (10/9), aconteceu algo inesperado: o colunista do jornal e âncora da rádio Juremir Machado da Silva abriu corajosamente espaço no seu programa de uma hora, a partir das 13h, para ouvir Elmar Bones ao vivo no estúdio da rádio Guaíba. Juremir foi o primeiro nome importante do jornalismo sulista e a Guaíba o primeiro grande veículo da imprensa gaúcha que conseguiu quebrar o bloqueio de silêncio e abrir espaço para a saga do JÁ. Quando veio o primeiro intervalo do programa, um esbaforido executivo da área comercial irrompeu no estúdio para implorar ao entrevistador e a seu convidado: "Pelo amor de Deus, não misturem esta entrevista com a campanha eleitoral do Rigotto! O homem ‘é assim’ com o nosso presidente!".
O pastor Natal Furucho, o presidente da Record no sul do país, seria mais um chefão da mídia que "é assim" com Germano Rigotto, o que explicaria o estrondoso silêncio midiático que envolve suas desditas.

O sumiço
Na quinta-feira (9/9), um dia antes da inédita entrevista na Guaíba, a história do ressuscitou no jornal O Sul, de Porto AlegreNão era nenhuma ousadia da casa, mas a nota de abertura da coluna de Cláudio Humberto, um profissional que Políbio Braga inveja como um "respeitado e bem informado jornalista" e que é reproduzido em outros 36 jornais do país, além d’O Sul. Furando toda a imprensa gaúcha, o colunista de Brasília informava: "Bomba política explode no colo de Rigotto". Era a notícia de que, após 15 anos sob um inacreditável "segredo de justiça", a juíza Fabiana Zilles, da 2ª Vara Cível da Fazenda Pública, em Porto Alegre, dera por "concluso" o caso da roubalheira da CEEE. Ou seja, falta agora apenas a sentença da juíza sobre a maior fraude gaúcha, que atinge diretamente o mano esperto que Germano Rigotto plantou na estatal.
A coluna de Cláudio Humberto é publicada simultaneamente nos três jornais do Grupo NH, que domina a rica região do Vale do Rio dos Sinos, em Novo Hamburgo, Canoas e São Leopoldo, no entorno da região metropolitana de Porto Alegre. Apesar disso, estranhamente, a nota daquele dia que brilhava n’O Sul desapareceu num passe de mágica dos jornais do NH. O dono do grupo é Mário Gusmão, um dos dois brasileiros que integra a Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da poderosa Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol). O outro brasileiro é Gustavo Ick, também do jornal NH do mágico Gusmão. A comissão da SIP, como o Clube de Opinião gaúcho, jamais opinou ou sequer colocou em pauta o caso do .
No dia seguinte, na mesma sexta-feira em que Elmar falava na Guaíba, o blog de Políbio Braga no mesmo O Sul replicava com uma manchete forte: "Jogo pesado mira candidatura de Rigotto". Citava a própria nota de véspera de Cláudio Humberto, que ele classificou como "oblíqua", e condenava o "saco de maldades" contra o PMDB supostamente aberto pelo "resgate do caso do jornal JÁ, acionado em juízo pela mãe de Rigotto, ofendida com reportagens sobre o filho morto, Lindomar". E mais não disse. Parecia uma mera travessura de um jornaleco irresponsável, enxovalhando a memória de um jovem desafortunado. Políbio esqueceu de fazer a conexão natural dos fatos que qualquer jornalista com o rabo preso com a notícia, só com a notícia, deveria fazer.

A resposta
O "resgate do caso do " foi engenho e bravura deste Observatório, o primeiro a contar os bastidores da ação dos Rigotto contra Elmar Bones (ver "O jornal que ousou contar a verdade", 24/11/2009, e "Como calar e intimidar a imprensa", 31/8/2010), assinados por este jornalista. O simples, inegável e transparente relato da saga do jornal e de seu editor, premiado pela reportagem e processado pela família do morto, virou "jogo sujo" na estranha interpretação do blogueiro Políbio Braga. Se não tivesse o rabo preso com o seu amigo Rigotto, ele poderia beber na fonte do límpido editorial que Elmar Bones publicou no site do jornal. Ali está claro que o caso do , engavetado desde julho de 2007, foi desarquivado em fevereiro de 2007 não pelo réu Elmar Bones, mas pelos advogados da própria família Rigotto. O saco de maldades, portanto, foi escancarado por quem, agora, teme sua repercussão político-eleitoral.
Definhando financeiramente, o JÁ teve em 2006 a altivez de recusar uma milionária oferta de um partido adversário do então governador Germano Rigotto, que se preparava para tentar a reeleição. A proposta era reimprimir 100 mil exemplares da edição maldita de 2001, contando os deslizes contábeis do irmão de Rigotto na CEEE, e espalhar a bomba pelo Rio Grande do Sul. A digna resposta de Elmar Bones, ao recusar a oferta, só cabe na cabeça de um jornalista que não tem rabo preso: "Nosso jornal não é instrumento político de ninguém", ensinou o editor do , encerrando a conversa.
Os artigos pioneiros do Observatório ecoaram fundo nas redações dos principais jornais gaúchos – Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul –, evidência de que os bons repórteres e editores do sul continuam atentos e inquietos, todos eles constrangidos com o silêncio que vem de cima. Em telefonemas e e-mails enviados diretamente a este jornalista, que assina aqueles e este texto, uns e outros se mostram solidários a Bones, conscientes do crime que se comete contra a liberdade de expressão e absolutamente impotentes para executar ou simplesmente sugerir esta pauta obrigatória. "Os textos do Observatório constituem uma paulada em nossas consciências amorfas", me disse um deles, em tom emocionado e sofrido. Apesar de ser de conhecimento público o nome da juíza, o endereço do tribunal e o número do processo do caso da CEEE, nenhum repórter teve a iniciativa de apurar esta história, como mandam as regras elementares do bom jornalismo, amarrado apenas pela busca da verdade e do interesse público.

A fresta
Apesar das dificuldades, aos poucos o espírito guerreiro de Elmar Bones se afirma e se impõe, furando a bolha de silêncio, como aconteceu com o pioneiro Juremir, na Guaíba. O Estado de S.Paulo publicou uma matéria (11/9), enquanto notas esclarecedoras brotam em blogs influentes e solidários, como os de Carlos Brickmann, Cláudio Humberto e Ricardo Noblat. Dias atrás, o blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, abriu espaço para um inédito pingue-pongue com Elmar Bones, de enorme repercussão na internet pela história que parecia novidade, mas que já tem dez anos de agonia e resistência. Inédito, no caso, era a disposição do repórter de ouvir o réu de uma das mais longas ações da justiça contra a liberdade de expressão.
Parece improvável que Germano Rigotto e seus amigos consigam estancar o vazamento crescente de uma epopéia que não pode ser silenciada, não deve ser escondida e não pode ser tolerada. A verdade flui sempre pelas frestas cada vez mais largas de um sistema multimídia que confronta a mentira e desafia o silêncio – e torna caricata a figura anacrônica do "jornalista com rabo preso". Na eleição de 2006, um pequeno instituto de pesquisas de Porto Alegre, o Methodus, desafiou o ridículo ao apostar na vitória do azarão Yeda Crusius contra os favoritos Germano Rigotto e Olívio Dutra. Deu no que deu.
Na semana passada, o Methodus publicou sua segunda pesquisa, encomendada peloCorreio do Povo para a corrida ao Senado no sul. Em relação ao levantamento do mês anterior, Ana Amélia Lemos (PP) subiu 12,4 pontos percentuais, chegando à liderança com 51,8%. Paulo Paim (PT) vinha em segundo, com 47,7%. Germano Rigotto (PMDB) caiu 6,8 pontos percentuais em relação à primeira pesquisa, ficando agora com 40,9%.
Pelo silêncio da grande mídia, não se sabe até que ponto a queda abrupta de Rigotto pode ser atribuída à verdade latejante do  e ao potencial corrosivo do escândalo da CEEE.
O bravo Clube de Opinião também não opinou sobre esta possibilidade.

Reprodução do Observatório da Imprensa

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

É preciso reconceituar o jornalismo

Marcelo Salles*
Não faz mais nenhum sentido chamar de Jornalismo o que fazem as corporações de mídia. Quem se preocupa com o lucro em primeiro lugar não é uma instituição jornalística. Não pode ser. Quando uma empresa passa a ter como principal meta o lucro, essa empresa pode ser tudo, menos uma instituição jornalística. E aí não importa a quantidade de estrutura e dinheiro disponível, pois a prática jornalística é de outra natureza. Exemplo: eu posso passar uma semana no Complexo do Alemão com um lápis e um bloco de papel. Posso chegar até lá de ônibus. Posso bater o texto num computador barato. Mesmo assim, se a publicação para onde escrevo for jornalística, vou ter mais condições de me aproximar da realidade do que uma matéria veiculada pelas corporações de mídia.
Essas podem dispor de toda a grana do mundo, de carro com motorista, dos gravadores mais caros, das melhores rotativas, de alta tiragem e de toda a publicidade que o dinheiro pode comprar. No entanto, se não forem instituições jornalísticas, elas dificilmente se aproximarão da realidade da favela, isso quando não a distorcem completamente.
Existem outros exemplos para além da questão da favela. É o caso dos venenos produzidos pelas Monsantos da vida, que nunca são denunciados pelas corporações de mídia. Ou da retomada dos movimentos de libertação na América Latina, vistos como "ditatoriais"; a perseguição aos movimentos sociais e aos trabalhadores em geral; a eterna criminalização da política, de modo a manter as instituições públicas apequenadas frente ao poder privado. Enfim, você pode olhar sob qualquer ponto de vista que não vai enxergar Jornalismo.
Isso precisa ficar bem claro. Claro como a luz do dia. Para que as corporações pareçam ridículas quando proclamarem delírios do tipo: "somos democráticas", "únicas com capacidade de fazer jornalismo", "imparciais" e por aí vai. Fazer Jornalismo não tem esse mistério todo. Em síntese, é você contar uma história. Essa história deve ter alguns critérios que justifiquem sua publicação. Alguns deles aprendemos nas faculdades e são válidos; outros são ensinados, mas devem ser vistos com cautela. E outros simplesmente ignorados. Mas, no fundo, o importante é ser fiel ao juramento do jornalista profissional: "A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na sua luta por dignidade".
Essa frase, quase uma declaração de amor, não é minimamente observada pelas corporações de mídia. Vejamos: elas não têm espírito de missão, não respeitam nada, nem as leis, estimulam o preconceito, discriminam setores inteiros da sociedade, violam os direitos humanos e não sabem o significado da palavra "dignidade".
Mas por que o Jornalismo é tão importante para uma sociedade? Porque hoje, devido ao avanço tecnológico dos meios de comunicação - são praticamente onipresentes nas sociedades contemporâneas -, a mídia assume uma posição privilegiada no tocante à produção de subjetividades. Ou seja, a mídia, mais do que outras instituições, adquire enorme poder de produzir e reproduzir modos de sentir, agir e viver. Claro que somos afetados por outras instituições poderosas, como Família, Escola, Forças Armadas, Igreja, entre outras, mas a mídia é a única que atravessa todas as outras.
Fica claro, portanto, que uma sociedade será melhor ou pior dependendo dos equipamentos midiáticos nela inseridas. Se forem instituições jornalísticas sólidas e competentes, mais informação, dignidade, mais direitos humanos, mais cidadania, mais respeito, mais democracia. Se forem corporações pautadas pelo lucro, ou seja, entidades não-jornalísticas, menos informação, menos dignidade, menos direitos humanos, menos cidadania, menos respeito, menos democracia.
É por isso que eu sempre digo aqui, neste modesto, porém Jornalístico espaço: as corporações de mídia precisam ser destruídas, para o bem da humanidade! Em seu lugar vamos construir instituições jornalísticas. Ponto.

* Jornalista, coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro e editor do site Fazendo Media www.fazendomedia.com, no qual este artigo foi publicado em 07/10/2009